Tenho aprendido com o tempo que quando julgamos falamos mais de nós do que do outro. Que a maledicência acontece quando o coração está com mau hálito. Que o respeito é virtude das almas elegantes. Que a empatia nasce do contato íntimo com as nuances da nossa própria humanidade. Que entre o que o outro diz e o que ouvimos existem pontes ou abismos, construídos ou cavados pela história que é dele e pela história que é nossa. Que o egoísmo fala quando o medo abafa a voz do amor. Que a carência se revela quando a autoestima está machucada. Que a culpa é um veneno corrosivo que geralmente as pessoas não gostam de ingerir sozinhas. Que a sala de aula é a experiência particular e intransferível de cada um.
Ana Jácomo
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Você chegou num momento razoável, com um charme razoável. Até a sua beleza é razoável. E acertou em cheio a hora de ir embora da minha cabeça. Você me quis desde o começo, mas nunca teve coragem de lutar por mim. Sempre achou que quando quisesse alguma coisa comigo - depois do que vocês homens chamam de "tempo" e que se resume em não levar nada à sério por um tempo sem se sentirem culpados - eu estaria aqui, sorrindo plástica, pronta pra me jogar aos seus pés.
Confesso que quando você apareceu, até pensei em ter você. Mas cada queda é um aprendizado, e em alguns dias, cada segundo é uma nova lição. Agora é tarde e eu sou mulher demais pra você. Não preciso dessa sua sabedoria que você usa pra intimidar quem não percebe a superficialidade das suas palavras. Não preciso de nada de você. Só distância. Você encontrou alguém diferente: uma leitora. Eu leio sua dúvida em tudo o que você diz com tanta certeza, porque precisa falar pra existir.
Verônica H.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Me deixa ser egoísta. Me deixa fazer você entender que eu gosto de mim e quero ser preservada. Me deixa de fora de suas mentiras e dessa conversa fiada. Eu sou uma espécie quase em extinção: eu acredito nas pessoas. E eu quase acredito em você. Não precisa gostar de mim se não quiser. Mas não me faça acreditar que é amor, caso seja apenas derivado. Não me diga nada. (Ou me diga tudo). Não me olhe assim, você diz tanta coisa com um olhar. E olhar mente, eu sei! E eu sei por que aprendi. Também sei mentir das formas mais perversas e doces possíveis. (Sabia?) Mas meu coração está rouco agora. GRAVE! Você percebe? Escuta só como ele bate. O tumtumtum não é mais o mesmo. Não quero dizer que o tempo passou, que você passou, que a ilusão acabou, apesar de tudo ser um pouco verdade. O problema não é esse. Eu não me contento com pouco. (Não mais). Eu tenho MUITO dentro de mim e não estou a fim de dar sem receber nada em troca. Essa coisa bonita de dar sem receber funciona muito bem em rezas, histórias de santos e demais evoluídos do planeta. Mas eu não moro em igreja, não sou santa, não evoluí até esse ponto e só vou te dar se você me der também. Pode rir, é isso mesmo. Não vou fingir ser o que não sou. Quer me tratar bem? Amém! Se não quiser, vá com Deus, não me procure mais! Amor incondicional é muito bonito. Mas eu só tenho por mim, pela minha família. E pelos meus gatos. De resto, sou igual bicho. Me morde e eu te como. Com as minhas palavras. Que são meu maior mel. E meu melhor veneno.
Fernanda Mello
Eu tenho medo de amar você. Tenho medo dos seus olhos que dizem tantas verdades pra mim e que me fazem sentir a menina de vestido rodado que comeu chocolate antes do jantar. Tenho medo das suas mãos que conhecem cada polegada das minhas curvas e deslizam por elas acabando sempre na minha nuca me fazendo um cafuné. Tenho medo da sua boca que não me diz muita coisa, mas consegue com perfeição divina calar a minha que diz tantas coisas desnecessárias. Eu tenho medo de amar você, porque amar você é me questionar se você ama à mim também.
A vida toca meus braços e eu não tenho vontade de deixar ela passar. O frio lá fora congela os cadáveres do meu passado e aqui dentro não poderia estar mais quente esperando o bebê da vida nova. Posso estar louca, e inconseqüente, e imatura, e impulsiva, e hiperbólica, e atirada, e infantil; posso estar fingindo, estar forçando, estar idealizando, estar correndo por algo que não me deu segurança nenhuma. Eu posso até achar que esse sentimento bom não existe fora da minha cabeça de garota interrompida, mas eu não vou deixar que nenhuma receita de amor que nunca funcionou leve você de mim dessa vez.
Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar, em vão, para trazer a linha de volta. É permitir que voe sem que nos leve junto. É aceitar que a esperança há muito se desprendeu do sonho. É aceitar doer inteiro até florir de novo. É abençoar o amor, aquele lá, que a gente não alcança mais.
Ana Jácomo
E a gente vai rir dessa maldade da demora do tempo
pra fazer essa brincadeira de desencontro: Quase nos deixou descrentes...
A gente vai rir dessa maldade porque o nosso amor
será a coisa mais bonitinha do mundo...
Marla de Queiroz
terça-feira, 25 de maio de 2010
Fazia frio naquele dia e cada pelinho do braço, da nuca, das bochechas se arrepiavam. Fazia tanto frio que ficava difícil não pensar nas coisas que eram quentes, mas que de mornas gelaram num segundo no meio do caos de todo dia, no meio da confusão que estava tão organizada na minha vida há tanto tempo.
Fiquei pensando em quantas vezes eu mudei de expressão, quantas vezes precisava de lágrimas para aliviar, mas me vieram sorrisos para fingir estar tudo bem, para eu mesma acreditar que sim, estava. Quantas vezes era coração mas eu ficava repetindo o mantra de quem se faz de moderna, de quem se perdeu no caminho e acabou se contentado com as coisas que achou pela estrada. A minha estrada tão tumultuada, tanto trânsito, tanto sol do meio dia, com tantas desilusões e tantas vontades que ficavam lá no final dela, esperando eu conseguir chegar.
Tanto sentimento contraditório em uma história tão breve, por enquanto. Tanta gente diferente gritando a todos os pulmões suas vontades e segredos... e me dizendo sempre a mesma coisa. Depositando em mim um pedaço de si e querendo um pedaço meu em troca porque, para toda ação, há uma reação e ninguém é benevolente se não vai ter retorno. Má hora então, eu pensei, porque a fase da vida está mais para egoísmos do que para altruísmos. Não estou pra ninguém agora, não me incomode.
Mas me incomodam, e eu me incomodo de não conseguir ser a menina rosada que sorria depois de um beijo, que beijava de olhos fechados porque se entregava. Eu tenho medo de nunca mais conseguir me entregar a alguém porque me entreguei ao meu medo de gostar de alguém de novo. A eterna paúra de não conseguir caber o coração dentro de si, de esperar telefonemas, sorrisos sinceros e beijos na testa de respeito de verdade. Eu não sabia mais o que era respeitar de verdade.
Todas as mãos dadas juntas não serviam para a mão estendida que eu pedi na hora em que eu precisava, e eu juro que eu ainda precisava de você naquele dia que você resolveu não estar mais aqui. Me fez jurar em vão que não iria sofrer, porque eu sofri tanto, tanto. Mas pela primeira vez na vida foi em silêncio, um silêncio da boca pra fora - e dentro a ruptura do cheio, o vácuo, o estranho, o escuro, o nada. Eu deveria me sentir sem nada porque eu não tinha mais você, mas tudo o que eu conseguia sentir era medo de nunca mais ter ninguém por ter amargado muito e perdido a medida. Medo de não querer mais absolutamente nada perto da nossa cumplicidade que eu achava ser de verdade, mas não era. Medo de apostar de novo em tantas coisas que depois, não seriam.
Eu acreditei tanto em você. E o maior motivo da minha crença não eram as nossas risadas, os nossos carinhos, as nossas tardes de conchinha, as nossas noites de gordinhos, os nossos programas de índio, as nossas viagens de improviso, os nossos segredos contados pelos olhos, as nossas descobertas, o nosso amor. Nada disso era o meu maior motivo. Nenhuma briga resolvida, nenhum ciúme infundado, nenhuma discussão com final feliz, nenhuma manha de menina mimada, nenhuma pessoa que tentou atravessar nosso caminho e não conseguiu. Não era isso que me dava certeza de você. Eu acreditava em você, porque você foi a primeira pessoa que me fez acreditar em mim.
Mas você foi embora pra mostrar que as coisas especiais não eram só minhas e não seriam só da próxima também. O seu medo de amar alguém completamente só era vencido pelo seu medo de ficar sem amar ninguém. E isso você não fazia, nunca vai fazer.
Meu subconsciente não entendeu muito bem e você aparece noite sim, noite não para assombrar as expectativas de futuro e remexer no que acabou mas está bem mal resolvido. A dúvida da rejeição passa pelas frestas largas da minha certeza que já foi e voltou tantas vezes que nem eu mesma consigo mais dar crédito. Você foi o filho da puta e quem ficou sem perspectiva fui eu. Tão ridículo fazer a coitadinha, mas tão injusto eu me sentir assim por você.
E me perguntam em tom de casualidade e com certo olhar de piedade por que diabos você, de uma hora pra outra, resolveu ser assim, tão cuzão. Eu respiro fundo e penso comigo: é, eu também não sei.