sexta-feira, 20 de maio de 2011

O errado que deu certo.


 




Depois de tantas chances perdidas,de tantas histórias mal contadas,mal vividas,mal escritas,depois de tantas lágrimas,de tanta confusão,de tanta falta de amor próprio...eu encontrei o cara errado.
O cara errado sempre é legal,sempre aparece do nada,e você pode até já o conhecer,mas você nunca vai imaginar que ele é o "prometido" que vai fazer seu coração acelerar.
O cara errado nem sempre é bonito,afinal,você nunca sonharia que seu príncipe fosse feio,e como eu disse,o cara errado é inesperado.Ele chega cheio de gentilezas,com tempo integral e exclusivo pra você,te cobre de elogios,te faz rir uma noite inteira,e não adianta,se você foi dormir as seis horas da manhã,não foi por causa do café que você tomou a noite inteira,não existe café no mundo capaz de te fazer tão viva uma madrugada inteira,seja mulher e assuma:você encontrou o cara que nunca te deixa sem assunto.
O cara errado não é o DJ que vai te apresentar todas as músicas estranhas do mundo,nem o cineasta que vai ver com você os clássicos da década de 50,muito menos o escritor que vai fazer você ler os maiores e melhores romances da literatura contemporânea.Mas o cara errado nasceu para que,junto com VOCÊ,ele viva uma música do Chico,te faça ser uma Julia Roberts em "Uma Linda Mulher",e viva com você uma história de Shakespeare.
O cara errado,é TODO errado,ele faz coisas que você detesta,ele tem manias irritantes,tem um jeito meio rural de ser,e não vai ser o cara que te manda flores no dia seguinte.Mas o cara errado é de verdade,é natural,é simples,é AUTÊNTICO,ele vai te beijar pra acabar com uma briga,ele vai brigar com você quando você fizer drama demais,e vai ter muita paciência com a sua mania de rir toda vez que o beija.
O cara errado,vai se tornar o cara certo depois que te conhecer,ele vai descobrir todas as músicas que você gosta,vai assistir trezentos filmes com você numa tarde de domingo,vai parar de ir para as boates da cidade,pra ir para o parque com você,vai ter muita paciência com seus atrasos e com o seu celular que vive desligado.
O cara errado quer casar com você,te acha linda mesmo você sendo uma formiguinha de tão pequena,te respeita,e te espera.
Não adianta fugir do cara errado,porque depois de um tempo você percebe que sem ele nada é certo.


Maria Clara Araújo

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Um você para mim.



 






E hoje eu descobri o porque do fascínio por ele,sou afim dele justamente porque ele não faz meu tipo,e o que me encanta nas pessoas é a surpresa que elas causam em mim,gente programada me corrói,me vomita continuamente,eu preciso de pessoas autênticas,de pessoas que erram feio,que me cortem,que me façam sangrar pra eu me sentir bem viva.
Ele não é o carinha tatuado que eu tanto acho charmoso,não é o carinha cult que vai me ensinar a gostar de filme francês,a beber vinho,nem amar o Woody Allen com todas as minhas forças,não é o garoto esportivo que vai me convidar pra uma trilha em uma mata fechada.
E é por tudo isso,que eu o admiro tanto...é porque ele conseguiu fugir da minha imaginação,do meu sonho,da minha expectativa,e da melhor forma possível...ele me surpreendeu!
Ele é o homem mais engraçado do mundo,só de olhar pra ele eu já quero passar uma semana dando as maiores gargalhadas,e eu o amo por isso,por me deixar ser sem graça,eu cansei de ter a obrigação de ser a menina engraçada,e ele me dá férias das piadas constantes.
Ele ao mesmo tempo consegue ser o cara mais mal humorado de todo centro oeste,ele sempre esta com "sangue nos olhos",ele sempre acha que vai dar um ataque de tanto nervosismo,e eu o amo por isso,porque perto dessa raiva toda que ele acha que tem,eu me sinto calma,me sinto leve,ele me dá férias dos meus ódios mortais.
Ele é o homem que usa botas e curte um sertanejo,e eu o amo por isso,porque ele me mostrou que tem competência pra fazer uma menina com um gosto musical tão diferente,gostar de um cara tão "matuto" como ele,ele me dá férias da minha mania de ser pedante.
Ele é o homem que tem o beijo simples e tão,tão,tããão gostoso,e eu também o amo por isso,porque ele me ensinou que beijo é entrega,e entrega não precisa ser cheia de escapulias,beijo é autêntico,ele me deu férias da minha complexidade.
Ele é o homem que eu mais briguei na vida,e apesar das brigas serem fortes,a gente sempre as acabava com uma super risada,ou uma declaração de sentimento bem sutil,ele me dá férias do meu lado boa moça,porque eu também brigo,eu também sou ciumenta,eu também tenho sangue nos olhos.
Ele é o único homem que me chama de doida,de criança,de exagerada,de baixinha e eu só consigo receber esses adjetivos como uma forma de cuidado,de carinho,de me achar uma menina pura e singular.
Ele é o homem que diz que vai casar comigo,que tem medo deu usar ele e depois jogar fora,e eu amo a nossa lealdade,a nossa sintonia,a nossa intimidade,a nossa AFINIDADE,eu te gostei desde o primeiro momento,e eu nunca quero te fazer mal,eu nunca quero perder a confiança em você,eu nunca quero ter que continuar fazendo piadas sem ter você pra me fazer rir no fim do dia.

Maria Clara Araújo

quarta-feira, 18 de maio de 2011


 

Você foi indo embora os poucos da minha vida, e eu preciso agora de um consolo imediato. Eu não sei se sinto a sua falta porque eu não sei mais o que sinto, ficou um buraco. Você tirou de mim tudo o que era nosso e tirou de mim tudo o que era meu, você me tirou do eixo, me tirou do meu fuso, da minha rota. Me tirou de onde eu estava, me tirou de tudo quanto foi lugar que você achou que eu não cabia e eu só fui indo, indo, indo, sendo tirada de cá pra lá, a todo momento, vagando pela vida sem precisar.
Você foi meu por tanto tempo que me dá medo de deixar doer tudo o que eu acho que ainda tem pra secar. E você foi meu por tanto tempo que às vezes parece que tudo foi gasto entre a gente, até a dor e, mesmo quando eu forço ficar triste por obrigação de sentir a sua falta, ela não vem.
Você me conheceu menina, e me viu virar mulher. Você leu todos os meus textos falando de outras pessoas, você esteve presente em todos os momentos da minha vida em que eu achei que só a sua aprovação era importante.  Você enxergou em mim a minha tristeza despedaçada e me falou tantas vezes que você era a cola que ia manter meu castelo de sonhos montado. Mas depois, você montou em cima dos meus sonhos, bloqueando qualquer visão que eu pudesse ter pra eles, me fazendo achar que além do horizonte do seu sorriso não se achava mais nada.
Você viu em mim qualidades que ninguém até então tinha tido sensibilidade de encontrar, você conheceu meus olhos de bom dia e de boa noite, meus olhos de felicidade, de saudade e de tristeza, você conheceu minha boca que se comprime quando a vida discorda comigo e eu não acho outra saída a não ser amarrar o choro no bico. Você me deixou te ver por debaixo da armadura que todo mundo conhece, você deitou tanto comigo em tantos lugares que aquela sua perna pesada que bloqueava a minha circulação toda santa noite virou minha perna também e, depois de um tempo, nem meu sangue ligava mais de ter o seu destino bloqueado por você.
Você me amou tanto que, mesmo sem poder me amar direito, não queria me deixar ir e foi matando nosso amor aos poucos, usando contra mim todas as coisas que um dia foram tudo o que eu ofereci de encantador a você. Você puxou todos os meus limites e me fez descobrir partes de mim que eu não sabia que existiam, você trouxe o melhor e o pior, trouxe aquela sensação de frio na barriga eterno, de ansiedade constante, de não saber se vai ser possível respirar até o pulmão encher porque, antes mesmo do final do respiro já se sente falta de ar.
Você foi meu de verdade, foi meu com tudo, foi meu de noite até de dia por todos os dias de todos esses anos que eu vivi você mais do que vivi comigo. Por todos os dias que eu acordei de manhã e precisava saber do quê você precisava, antes de eu me lembrar que eu também era uma pessoa e também precisava de tantas coisas.
E eu fui embora porque por mais que eu tentasse, por mais que eu chorasse, rezasse, desejasse, implorasse, suplicasse, abaixasse, ajoelhasse, gritasse, sussurrasse e pensasse, eu percebi que a minha necessidade de você nunca seria suprida já que, de alguma maneira que até agora eu não sei, você me roubou de mim e a minha busca era sem fim porque não era certeira.
E pela primeira vez em muitos anos eu entendi que eu estava precisando de mim, não de você.
E mesmo enquanto eu me ajoelho e reúno do chão os pedaços de mim, não posso negar que muitos deles são completamente seus. A gente se bagunçou tanto que só a música do Chico consegue explicar a minha sensação de ter o seu paletó enlaçado no meu vestido aonde quer que eu vá. Você vai pra sempre fazer parte do que está em mim e, mesmo com olhos céticos, tudo o que a gente teve de tão bonito nunca vai mudar.
‘Só amor não adianta’, a gente repetiu tantas vezes. E eu precisei não poder mais enxergar você na minha vida que era pra ver se, assim, eu conseguia começar qualquer frase, qualquer conversa, qualquer pensamento e qualquer texto com alguma outra palavra que não ‘você’.
E o meu discurso antigo (que é seu) diria com a sua voz  (da qual conheço todos os tons) que pra mim o nosso amor não passou de um monte de experiências exageradas pra virar, no final, um texto bonito.
Eu, entretanto, discordo. Pra mim o nosso amor foi verdadeiro e é uma pena que ele termine assim, reunido num monte de palavras tristes no chão, sem cola.
O meu castelo desabou e eu preferi reconstruir meu mundo sem você. Por escolha, não por falta de amor.
Rani Ghazzaoui

domingo, 15 de maio de 2011

Amor Também morre de saudades, sabia?


 




Começou assim: eu subi as escadas e lá estava você, querendo parecer jovem com uma camiseta brega manchada de pasta de dente. Eu caí da escada e demorei anos pra me levantar. Eu te amava com uma mistura de todos os meus personagens e, por isso, tão intensamente. Eu era uma menina deslumbrada que amava ver suas invenções por aí, era uma menina carente que amava seu jeito de pai, uma mulher em formação que se formou com você, uma depressiva neurótica que precisava das suas piadas que deixavam tudo leve, até sua ausência e impossibilidade eu amava com toda a minha vontade de grudar em você pra sempre. Até que cheguei ao ponto de te amar sei lá por que, o que deve ser o verdadeiro amor.Um dia seu cheiro começou a me dar um azedo na alma. Seu jeito, uma preguiça de me encantar. Suas palavras, um zumbido chato que me animava a prestar atenção em outra coisa. Era o instinto me dizendo que não dava mais pra sofrer. Amor também morre de saudade, sabia? E eu tinha saudade de te amar pura. Depois de levantar duzentas vezes e ir para o canto do ringue, cuspir sangue e ouvir a torcida dentro do meu coração gritar pedindo mais, eu fui a nocaute.Você sabia melhor do que ninguém que a felicidade me esmagava e eu ficava ainda mais carente quando ganhava carinho. Por isso você era em doses homeopáticas a pessoa mais carinhosa do mundo e também o ser mais frio do planeta. Muito em pouco, o máximo no mínimo, quase nunca pra sempre, nunca mais todos os dias. Mas agora você se distrai com as três passagens que comprou: uma para você e duas para a sua nova namoradinha, que é tão agraciada com culotes que precisa de dois lugares no avião.Não é inveja, nem ciúme, nem dor, é cansaço dessa vida banal que me arrota na cara toda vez que eu engulo ar para aumentar ainda mais a minha intensidade. Por que as pessoas são assim tão esquecíveis e passageiras? Por que planejar uma agenda de motivos para não ser de alguém com medo de se perder?


Tati Bernardi.

seu nome é SAUDADE.





 


Embaixo das suas mil camadas de interesses por tudo. Embaixo das mil peles de ansiedade. Existe o menino que nunca tiro do coração. Saudade.
Banshee Beat é a música mais linda dessa tarde. E você o menino que nunca tiro do coração. Saudade.
Você achando que sentíamos igual por causa do beijo profundo e do olhar dolorido. Você é o menino que nunca tiro do coração. Saudade. Você querendo tirar foto da minha sala. Como se viver fosse o seu turismo eterno. Você sanduíche e eu uma carne de minhocas apaixonadas.
Você fazendo a dança do “levar o lixo lá fora” e eu deixando você ver como tenho medo de gostar. Você é o menino que não tiro do coração. Você querendo mandar fósforo pra queimar o presente que tinha acabado de mandar. Todas as suas grosserias e erros chegam sempre com graça.
Você me ligando de madrugada. “Vou te processar se você escrever sobre mim”. Eu querendo escrever no céu, no peito de Deus, no meu fígado.
Você indo embora dizendo não saber gostar só de mim. Eu pensando apenas que roupa colocaria pra quando você voltasse. O amor corre separado.
Você longe de mim por país, por peito, por intenções. E nas músicas, nos livros, nas piadas de youtube, na pele dos outros, na minha ilusão. Você tocando alto o violão, fugindo da foto pra fazer o efeito borrado, me roubando da fila da livraria para um cantinho. Você pra sempre.
Em todo espaço, em todo branco, em todo homem, você é o menino que não tiro do coração. Errado, distante, esquecido, apagado e pra sempre.
Você me dizendo “não vou te fazer esperar, mas um dia…” Você a desgraça boazinha. Você o “um dia” que não foi quando o dia chegou.
Ouço você através de tudo o que é bonito. Toco você em tudo que peço socorro ou só rotina. Você o menino que nunca tiro do coração.
Pode ir pra longe, em paz, com ela, sem mim. Mas não esqueça que são 92 mil pessoas seguindo esse amor. E esse amor imenso é todo pra você.


 Tati Bernardi. *-*

segunda-feira, 9 de maio de 2011




 


Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre vão embora. Talvez essa seja a pior coisa do mundo.
Ele vai embora, sempre, quando eu preciso de quinze minutos de silêncio complementar à minha entrega, odeio o desespero dele por banhos e a sua ansiedade curiosa pelo que vem depois. Que se dane o depois, eu sou agora, ou pelo menos era.
Ele vai embora, sempre, quando o parágrafo passa de três linhas, o pensamento dele ultrapassa meus olhos, o som se perde da minha boca para qualquer outro canto do mundo que não tenha seus ouvidos e ele olha fixamente para qualquer outra coisa que não seja a minha existência. Sempre a mesma cara de tédio e de busca pelo resto que não se repete ou não se prolonga.
Ele sempre vai embora quando eu queria que ele se perdesse um pouco, rasgasse a camisa, lançasse o celular no rio, desligasse todos os toques, luzes e sinais de que há todo o resto. Esquecesse do sono, do livro, da casa dele, das menininha idiota. Ele sempre vai embora do meu mundo quando eu só queria que ele descansasse um pouco de ser ele o tempo todo, mas ele tem muito medo de não ser ele, talvez porque ele não saiba o que ele é.
Ele sempre vai embora pra descobrir quem ele é, ou para lembrar que ele é o mesmo de sempre que não sabe quem é, ele sempre vai embora antes da gente ser alguma coisa juntos.
Vivo com essa sensação de abandono, de falta, de pouco, de metade. Mas nada disso é novidade. Antes dele, teve o outro, o outro que continua indo embora para sempre porque nunca foi embora pra sempre. Eu não sei deixar ninguém partir, eu não sei escolher, excluir, deletar. São as pessoas que resolvem me deixar, melhor assim, adoro não ser responsável por absolutamente nada, odeio o peso que uma despedida eterna causa em mim. Nada é eterno, não quero brincar de Deus.
O outro foi embora a primeira vez porque estava bêbado demais, foi embora a segunda porque ficou tarde, foi embora a terceira porque teve medo de ficar pra sempre, foi embora durante alguns longos anos porque todo o resto do mundo precisava dele e eu era apenas uma das demandas. Ele me chamou de demanda a última vez que foi embora pra sempre, mas pra sempre pode durar duas horas, dois anos ou duas encarnações. A gente sempre se despede lembrando da música do Chico que diz “o amor não tem pressa, ele sabe esperar em silêncio”.
Antes dele teve ainda um outro que sempre ia embora na espera de que existisse algo melhor do que eu, mas não ia definitivamente porque não é todo dia que aparece alguém melhor do que eu. Um dia apareceu, ela até que é bonita e tal, não parece tão confusa e intensa e talvez mediocridade seja tudo de que uma pessoa precise para ser feliz. Mas a última vez que ele foi embora, antes me deu um abraço de quem nunca saiu do mesmo lugar. O abraço e o seu olhar de quem nunca sabe direito porque vai embora ficaram pra sempre comigo.
Hoje meu novo velho amigo foi embora, não pra sempre, mas um segundo pode ser pra sempre se pensarmos grandiosamente, e ele me dá vontade de pensar grandiosamente. Fazia tempo que alguém não ficava tão calado enquanto eu apenas existo, fazia tempo que alguém não ficava tão perdido só porque me encontrou, fazia tempo que eu não me olhava no espelho e sorria, sabendo que sim, sim, sim, sou bonita ora bolas! Sou interessante! Da onde eu tinha tirado o contrário nos últimos meses?
Todo mundo chega na sua vida. Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre chegam. Talvez essa seja a melhor coisa do mundo.
Como naquele texto que não lembro, daquela pessoa que não lembro, e sobre o qual você me contou de um jeito que eu nunca mais vou esquecer, no final a gente acaba mesmo numa esquina qualquer, lembrando de alguém que um dia chegou e depois foi embora, perplexo.

Tati Bernardi_adaptado

domingo, 8 de maio de 2011

Depois que você me mandou limpar os óculos.


 






A mesa rodava, as luzes insistiam, os barulhos iam cessando como um prêmio e as pessoas tentavam me aquecer. Eu sabia que estava sendo amada, talvez como nunca em toda a minha vida. Mas só tinha olhos para os pêlos do seu braço. Eu olhava como quem não olha e me dizia baixinho: olha eles lá, olha lá os pêlos que eu tanto amo sem mais e sem fim.

Matei finalmente a saudade do seu dedão. Seu dedão meio largo, meio torto, com a unha que preenche todo o dedão. Eu amo o seu dedão, amo sua unha meio roxa, amo a semicircunferência branca que sai da sua cutícula e vai até o meio da sua unha, amo a sua mão delicada que sai de um braço firme. Amo que os pêlos da sua mão pareçam meio penteados de lado.

É isso, sei lá, mas acho que amo você. Amo de todas as maneiras possíveis. Sem pressa, como se só saber que você existe já me bastasse. Sem peito, como se só existisse você no mundo e eu pudesse morrer sem o seu ar. Sem idade, porque a mesma vontade que eu tenho de te comer no banheiro eu tenho de passear de mãos dadas com você empurrando nossos bisnetos.

E por fim te amo até sem amor, como se isso tudo fosse tão grande, tão grande, tão absurdo, que quase não é. Eu te amo de um jeito tão impossível que é como se eu nem te amasse. E aí eu desencano desse amor, de tanto que eu encano.

Ninguém acredita na gente: nenhum cartomante, nenhum pai-de-santo, nenhuma terapeuta, nenhum parente, nenhum amigo, nenhum e-mail, nenhuma mensagem de texto, nenhum rastro, nenhuma reza, nenhuma fofoca e, principalmente (ou infelizmente): nem você.

Mas eu te amo também do jeito mais óbvio de todos: eu te amo burra. Estúpida. Cega. E eu acredito na gente. Eu acredito que ainda vou voltar a pisar naqueles cocôs da sua rua, naquelas pocinhas da sua rua, naquelas florzinhas amarelas da sua rua, naquele cheiro de família bacana e limpinha da sua rua. Como eu queria dobrar aquela esquininha com você, de mãos dadas com os pêlos penteados de lado da sua mão.

Outro dia me peguei pensando que entre dobrar aquela esquininha da sua rua e ganhar na mega-sena acumulada, eu preferia a esquininha. A esquininha que você dobrou quando saiu da casa dos seus pais, a esquininha que você dobrou chorando, porque é mesmo o cúmulo alguém não te amar. A esquininha que você dobrou a vida inteira, indo para a faculdade, para a casa dos seus amigos, para a praia. Eu amo a sua esquininha, eu amo a sua vida e eu amo tudo o que é seu. 
Amo você, mesmo sem você me amar. Amo seus rompantes em me devorar com os olhos e amo o nada que sempre vem depois disso. Amo seu nada, apenas porque o seu nada também é seu.
Amo tanto, tanto, tanto, que te deixo em paz. Deixo você se virando sozinho, se dobrando sozinho. Virando e dobrando a sua esquininha. Afinal, por ela você também passou quando não me quis mais, quando não quis mais a minha mão pequena querendo ser embalsamada eternamente ao seu lado.


Tati Bernardi.